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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

RECORDAÇÕES DA MINHA RUA

(PEQUENO FRAGMENTO DA MINHA AUTOBIOGRAFIA)

(…)

… A vida continuava num frémito de carências e paixões. Lá estava o “azeiteiro”, com um burro esquálido e morto de cansaço, puxando a image carroça vergada ao peso de vasilhame com azeite e azeitonas, zurrapa de vinho ou “água-pé”, algumas broas de saúde negra, bafientas, “do dia anterior” – eram certamente sobras de quem não pôde comprar por fiado não ter; também transportava toda a espécie de géneros alimentícios. “Não têm que ir à loja, cá o Quim azeiteiro traz de tudo para vossemecês”. Então Dª Julieta, as broas são mesmo de ontem; o que fiz, foi demais e, olhe, sobraram-me estas… pronto, compra-me um litro de azeite e ofereço-lhe uma; não se preocupe, vai pró livro; depois paga, que eu sei bem quem é gente séria. – Insistia o andrajoso homem, moreno, de tez curtida pelo sol; e lá pegava ele na corneta e tocava até os ouvidos cansar; e gritava também:

– Azeiteiro, olha o azeiteiro… mulheres, então não querem o Quim azeiteiro?

E era a leiteira das quatro, a padeira, a carvoeira, a peixeira, “olha a sardinha biiiiba, que bibinhas, queridas!”; o jornaleiro “Olha... olha, diz aqui que o Toninho vai mandar mais tropas pró Ultramar; leiam, leiam seus ignorantes, isto está a ficar mau!”; era o polícia de giro com os braços escondidos nas costas, naquele andar vagaroso e enviesado , embrulhado numa farda cinzenta e puída; boné “tipo disco” enorme, maior que a sua cabeça – por muito prenhe de ideias lá metidas não chegava para o encher; e tinha aquele ar de importante – sim, porque naquele tempo os polícias eram importantes!

A rua era um torvelinho de acontecimentos durante todo o dia e noite: os rapazes jogavam à bola e ao pião; “empresta-me a faniqueira, emprestas? A minha já pariu”; as raparigas corriam, de bonequinhas na mão, a jogar às escondidas. Por vezes as coisas, ou entre eles ou elas, azedavam, e era ver as mães a tomarem partido e, entre gritos histéricos e mal cuidados, atirarem-se aos cabelos umas das outras para fazerem valer a sua razão. À noite chegavam os pais, derreados por mais uma longa jornada de trabalho, e a primeira coisa que ouviam eram as histórias do dia. Lá iam eles também tirar satisfações aos vizinhos; aqui já era mais sério pois, por entre socos e pontapés, uma ou outra vez, pequenas navalhas de “ponto e mola” eram encostadas nos rostos ou costelas dos oponentes.

– Ó da guarda, ó da guarda, ai que ele mata o meu homem! Ó desgraçado, eu vou buscar uma tesoura e arranco-te os olhos.

– Não te rales, mulher, que ele já tem os cornos bem amassados. – Respondia Zé Pedras, o rei dos conflitos da rua… e fazia questão de o afirmar, não porque fosse muito dotado atleticamente, mas o tempo que tinha estado arrecadado no Aljube, mais as cicatrizes afundadas no pescoço, davam-lhe uma “orgulhosa” fama de mau, o grande facínora da zona. Também ninguém podia esquecer que era – fazia alarde disso em todas as conversas, como se fosse verdade – o “papa gajas” de toda a freguesia de Ramalde, a terra dos “cornos grandes”! O apelido que tinha devia-se ao facto de, sempre que um comboio atravessava a rua, se divertir a partir os vidros das janelas, arremessando tudo quanto era pedra. Passava mais tempo na “sombra” que a trabalhar de pedreiro. Enquanto prolongava as suas “férias”, repartidas diversas vezes ao ano, a mulher, a Gina Mama Tudo, entretinha-se no “aquecimento” de velhos reformados e viúvos, fazendo-os esquecer as derrotas nos jogos da “sueca” e, principalmente, as mágoas de toda uma vida magoada! E quando falo de “aquecimento, sei do que falo: na imageverdade a Gina mais parecia uma  botija de gás, deformada, com monstruosos pés suportando duas enormes – e desejadas (!?) – protuberâncias; no corpo, uns braços fortes e peludos, em simetria desafiadora, escondiam as mãos atrás da “bilha”; não se lhe adivinhava a cabeça, ou antes, talvez que a torneira de gás desempenhasse a tarefa de pensar…; apenas dois enormes e bonitos olhos sugeriam que “aquilo” era gente! Chegavam a polícia e a ambulância; partiam o amassador de cornos e o de cornos amassados. No dia seguinte já tudo havia sido esquecido, restavam apenas uns arranhões, uns olhos pisados e alguns pensos; nada que evitasse o convite para uma bacalhoada “no próximo Domingo” para fazerem as pazes. Mas, antes, todos tinham que ir confessar os seus pecados. Era um corrupio na capela, com as mulheres de lenço preto e rendado na cabeça e os homens também vestidos para o escuro, aguardando a vez de expiar os seus pecados – leia-se as navalhadas e os “cornos” partidos dos rivais!

– Então, perdoou-te? – Perguntava-lhe a mulher, Gina Mama Tudo.

– Perdoou-me… vou ter que rezar um terço completo quando chegar a casa, senão não posso “tomar o Senhor” na missa de Domingo, e a ti?

– Também tenho de rezar um terço. – Respondia ela com um ar algo preocupado: não tinha confessado ao padre as fraquezas divididas com o seu compadre e cunhado… “isso não tem importância, afinal é da família!” Depois da missa iam até à rotunda da Boavista, ou ao Carvalhido, engraxar os sapatos. Havia dezenas de engraxadores espalhados pelo jardim, sentados nas suas caixas com o suporte do pé na frente, um ou dois frascos de tinta e algumas latas de pomada ao redor, e perguntavam:

– Freguês, quer com lustro ou meio lustro? Pomada branca, preta ou castanha? – Depois, com um pano de flanela, ou de seda, consoante o polimento escolhido pelo cliente, inclinavam-se para a frente e, como os ciclistas em cima do selim “sprintando” parimagea a meta, em furiosos movimentos oblíquos e ao som de pneus gastos em derrapagem, finalizavam a sua obra. “Pronto, caro amigo, ora até se pode ver a sua cara nos sapatos!” – “Quanto é?” “Cinco tostões, nem para a graxa dão; um ou dois tostões de “gorja” até não caíam nada mal, mas vossemecê é que sabe!” De regresso a casa ainda compravam um maço de cigarros, Definitivos ou Provisórios, sem filtro, e passavam pela taberna para um café “com cheirinho” de bagaço.

– Então, Gina, o “tacho” já está pronto? Eu hoje quero o conduto só no fim; enquanto os vizinhos não chegam, põe-me aqui um prato de sopa e liga aí a rádio para a “Voz dos Ridículos” (Clássico programa de humor que, durante trinta anos, ia para o ar às 13,00 horas, aos Domingos, e que começava sempre com uma anedota diferente).

– O que é um pedreiro? – Perguntava o locutor.

– É aquele que, volta e meia, dá um tiro no trabalho. – Respondia outro.

O homem quase se engasgava com a sopa de nabos.

– Ai, o filho da puta… eu sou pedreiro, mourejo até cair para o lado e… ah, ah, ah! Tá boa, muito boa! –

Enfim, o Zé Pedras afinal tinha percebido a piada! Finalmente chegavam os vizinhos para enterrarem o machado de guerra e entreterem-se logo de seguida, depois de bem comidos e bebidos, numa renhida partida de malha ao meco, enquanto as mulheres arrumavam a casa.

O tempo ia passando, por entre “jogatanas” de bola no largo do fontanário, – “olha a bófia, olha a bófia” – e todos fugíamos do polícia de giro. Era proibido jogar a bola na rua e, se os miúdos estivessem descalços a multa dobrava; assim, quem tivesse menos jeito, ficava de sentinela; também eram proibidos os ajuntamentos – mais de dois já assim eram considerados.
– Abram… de frosca, de frosca… toca a andar. – Gritava o polícia.
Mais tarde, numa grande parte do referido largo, foi construído o viaduto de Sidónio Pais que, ainda hoje, liga as ruas de Pedro Hispano, 5 de Outubro e o Nó de Francos.

(…)

sábado, 31 de outubro de 2009

Barcelona_Rambalas



Homem estátua nas Rambalas
Posted by Picasa

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Carta aberta a Saramago

Confesso que me estou nas tintas para o facto de um decrépito escritor como você, ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. Já vi – ainda agora o presidente Obama ganhou o prémio Nobel da Paz sem sequer, ainda, nada ter feito – já vi, dizia, analfabetos serem presidentes dos seus povos, idolatrados como deuses numa incensada auréola de fervor e cujos resultados futuros haveriam de projectar em fétida lama de desgraça todos os que os apoiaram. Confesso, ainda, que você não é um bom escritor; é, sem dúvida um homem mau, feio, com tiques de iluminado e que achou por bem fazer uma interpretação única da Bíblia. Você que é agnóstico – apesar de, por conveniência, ter casado com uma freira espanhola – deu-se ao trabalho de ler a principal obra que guia, pelo menos sugere, o melhor caminho aos milhões de crentes de todo o mundo. Confesso, ainda, que li o Memorial do Convento; quer dizer, li um pouco porque quando me apercebi do seu facciosismo, das interpretações malevolamente sexuais que fazia do seu conto, logo o fechei, com vontade de o devolver à Sociedade Portuguesa de Autores. Não leio mais algum pois, você, não é mais que um maltrapilho intelectual resguardado à sombra de uma bandeira, que é a minha, o que me envergonha. E sabe porquê? Há uns quatro anos atrás, você, escritor de super mercados, dizia que ia optar pela cidadania espanhola porque Portugal não o merecia. Eu convido-o a, rapidamente, fazer a sua opção porque, custa-me, sinceramente, partilhar a minha cidadania com um ignorante como você. È que se fosse apenas ignorante, eu até lhe dava algum desconto, mas não, o senhor é muito mais que isso. Ou seja, nem ignorante chega a ser porque está de tal forma doente que, qualquer palavra que vocifere indicia um internamento imediato numa clínica de dementes irrecuperáveis. Talvez que os seu amigos da sua tão decantada esquerda ainda consigam uma vaga na Sibéria, quem o sabe? Porque não "mete uma cunha" ao seu tão querido amigo Mário Soares? Eu agradecia – porque me libertava de mais duas preocupações – que o senhor, acompanhado pela sua infeliz mulher mais o gordo de Nafarros e sua bondosa esposa, nos deixasse de vez. Acredite que todos os sinos paroquianos badalariam até que as mãos dos sacristães ficassem inertes.
Não admira – agora sei porquê – que a sua primeira companheira, a ilustre escritora Isabel de Nóbrega, o tenha "despachado" para as mãos da Carmen.
Infelizmente para ela, senhora de berço dourado e fino trato, inteligente, culta, caiu numa cilada preparada pelos seus amigos da esquerda radical e acabou por se apaixonar por um Zé Ninguém, armado em intelectual mas que não passava de um reles demónio disfarçado de gente. Foi ela que o ensinou a escrever, seu artola, e, porque realmente o amava, aguentou o mais que pôde e só o largou quando, afinal, você já a tinha despojado de toda a riqueza.
Você, não passa de um homenzinho da Golegã, terra de boa gente, que passa a vida a insultar Deus, em raciocínios primários de operários de tasca em redor de naipes de cartas e cheirinhos de aguardente.
Por favor, meu "querido Sabarmago", quer dizer, Saramago, deixe-me feliz na minha ignorância e desapareça da sociedade inteligente que o senhor tão vilipendia. Assuma definitivamente a cidadania espanhola. Não sabe o enorme favor que faria a este ilustre povo das quinas.
Seu admirador, desde sempre,
Pedro Sidney

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A viagem de um amigo

(…) Recebemos uma ordem para partirmos de imediato para Quicabo, na ZMN. Iríamos prestar apoio a uma Companhia de Caçadores que estava "entalada", há sete horas, numa tremenda batalha com um batalhão de "turras" apoiado por mercenários Cubanos. Quando o Comandante, Coronel Jorge Lamas, nos comunicou que iam avançar dois pelotões, logo pressentimos a importância da operação. Também possuíamos a informação que outros dois pelotões da 2042ª já se encontravam na zona. Tínhamos aproximadamente 70 quilómetros de picada pela frente. A correr bem, faríamos o percurso em 3 horas.
– "Operação Chumbo", OK pessoal? – Gritava o Coronel. – O grupo Leopardo é comandado pelo capitão Teles e, na sua "lerpa", assume o furriel Santos. O grupo Palanca é comandado pelo alferes Lourenço e, na sua "lerpa", assume o 1º sargento Areosa. E o último comando…?
– Mama Sumae!– Gritamos todos em uníssono. Era o nosso grito de guerra.
Chegou a hora. Fizemos escolta a uma coluna de camiões até Quibaxe. Afinal a economia não podia cessar. Parar era morrer, era depor os braços ao infortúnio. O comando protegia, o comando lutava por Angola, o comando defendia os fazendeiros e os patrões, o comando morria por uma coisa que diziam ser a Pátria ou pela colheita de uns sacos de café. Guerra sinistra e madrasta para muitos e benfeitora para outros – dilatando os seus lucros e reduzindo os seus escrúpulos. Os soldados expiravam com honra, pelo caminho da Eternidade, encomendados pelo caridoso antifonário clerical na Basílica de Fátima e outras… quero lá saber quais! O que sei é que depois dos cânticos se abatia um silêncio padecido, enrolando as famílias. Venturosos filhos, tristes mães! Sangue vertido pelo outro, pelo colonialista, pelo amigo negro ou branco, que o destino pôs na guerra, ou a desdita de ter nascido uma vintena de anos mais cedo. A morte gotejando das armas, a vida na suspensão das horas. A guerra. Só a guerra no enxergar dos dias. A terra e a família em saudade angustiada, nas horas que não passam e notícias que não se querem, mas que são esperadas. Não chegam! Estarão perdidas no nevoeiro das distâncias, por entre gritos de raiva ou raivas de já não poder gritar? Do mal, o menos: que hajam gritos e raivas… mas que hajam!
(…)
Estávamos de regresso. Foram quatro horas de batalha dura, mas o Dever foi cumprido. Os Caçadores retiraram com nove mortos e onze feridos. Nós e os da 2042ª apenas tivemos seis feridos ligeiros. Quanto aos turras… não sei! O que sei é que o capim ficou manchado de vermelho e que as hienas e os mabecos iam, de certeza, fazer enormes festins durante as noites seguintes.
– Não, artilheiro. Prefiro estar contigo neste jipe porque nunca foi atacado; eles fogem da artilharia – disse o alferes, sorrindo na cor da adrenalina, ao mesmo tempo que se encostava no banco lateral e acariciava a sua FBP.
– Ponha-se a pau, que alguns deles conseguiram escapar e ainda estão por aí, meu alferes! – Respondeu o artilheiro Bielas, desviando-se para o oficial se acomodar melhor num dos velhos assentos em tiras de madeira.
– Agora, que tenho cá o meu amor, mais se apertam as ideias sobre toda esta nojeira. Parece-me que estou a ficar com mais "cagaço" – retorquiu o oficial.
– Previna-se, meu alferes, que isto é uma bola, que Deus ou lá o que é faz jogar, e a vida pode ser curta – respingou o Bielas, entortando os lábios pálidos de medo, e continuou: – uma boa mirada do cão e um dedo no gatilho fazem "lerpar" um gajo num instante, nesta maldita terra que dizem ser nossa, isso é que é uma verdade! – E passou a mão pela arma, num gesto de fascínio e conforto.
– Estou de acordo, amigo – continuou o alferes Lourenço, apertando a correia do capacete – mas agora vamos mas é descansar porque já fizemos a nossa obrigação.
Íamos começar a rodar. Em pé, em cima do banco do Unimog e amparado por soldados, eu tentava, com a ajuda dos binóculos, detectar algum movimento suspeito. Nada. Apenas vultos imóveis e desconjuntados, espalhados pelo capim. Obra do Diabo ou o diabo de uma obra inacabada?
– Santos, – gritou-me o capitão Teles – Chumbo terminado?
– Certo, meu capitão. Os cães adormeceram.
– Eh, Palancas, estão prontas?
– Sim, meu capitão. Os cães não acordam. – Respondeu o alferes Lourenço.
– Então, siga que se faz tarde. Atenção que alguns podem não estar a dormir. Queimem, queimem… é preciso luz.
Num ápice, dezenas de granadas ofensivas voaram para a cama de capim onde os cães dormiam o sono eterno. Os motores roncaram e iniciamos o regresso. Alguns soldados, já bêbados, comemoravam, ao desafio com os mabecos, a crueldade da esmagadora vitória. Uivavam sem tino, como se de repente o espírito do cão lhes enovelasse a mente. Por vezes acalmavam, por entre arrotos de cerveja quente.
Um clarão, um estampido!
Ainda os carros não tinham parado e os dois grupos já mergulhavam na terra barrenta e avermelhada.
Silêncio, nem um restolho!
– Dois cães na mira, meu capitão! Estão feridos. – Gritou o artilheiro.
– Estás à espera de quê, anormal?
Uma rajada infernal eliminou-os.
A coberto da selva virgem, – de mil segredos, de onde Deus se ausentou, talvez para fazer de conta que não via os guerrilheiros, caídos na sua graça, coibindo a expansão da fé missionária que o imperial e moribundo esqueleto pátrio teimava em proclamar – foi montada uma cobarde emboscada, no desespero da perda de centenas de capangas impreparados, mas doutrinados em valores ideológicos desconexos. Quem sabe se alguns deles não estariam hoje sentados em douradas cadeiras da corrupção, forjando anéis de madrepérola para os seus dedos, à custa dos dedos cortados das mãos de quem os ergueu.
Mas também nós, guerreiros da Pátria atraiçoada, não podemos esquecer os veneráveis colonos analfabetos perdidos pelos sertões, banzados e incrédulos, movidos pela voragem dos tempos; amantes de negras, criadores de mulatos, bêbados pela ânsia do dinheiro mas… ignorantes, perdidos na vertigem das horas, em cálidas noites de batucada merengue!
Enquanto seis batedores rastejavam até uma clareira próxima, no sentido de nos fornecerem quaisquer informações de realce, o capitão ordenou a contagem. Faltava um!
– Lourenço, Lourenço – gritava eu, com uma dor apertada na alma.
Já no crepúsculo do dia, rasando os jipes, Unimogs e Berliets, surgiu a imponente figura do Bielas. Com a boca refegada pela raiva, levantava o corpo do alferes, braços inertes e pendentes, como dois falos de um qualquer Diabo impotente e anormal. As pernas tombadas para um lado, a cabeça caída para o outro, na preguiça ainda quente da morte. Tragédia montada, mas não esperada, e o efeito de catarse em todos – como se um herói como ele, precisasse das nossas lágrimas!
Exilado da vida, sem Deus, nos confins do maldito sertão, arrefecia na triste solidão de um dia a riscar do calendário das memórias.
– Onde pára esse gajo… esse a quem chamam Deus? – Bramia o artilheiro, tremendo, com os olhos nas alturas enquanto se espumava de raiva. Chorava, mas delicada e docemente, depositou o corpo na padiola.
Uma pequena mancha acastanhada sujava o cartão de identidade que o alferes Lourenço trazia no bolso da camisa, do lado esquerdo, bem por cima de um coração de ouro. Num momento, sem aviso, as negras parcas cortaram brutalmente os ténues fios de vida de um elegante cavaleiro de olhos azuis. Não merecia, ainda, ser transportado na Barca de Caronte. O Paraíso, se existe, bem podia esperar mais uns anos. O alferes era muito mais útil aqui, a cuidar das crianças doentes.
Dizia-me ele, dois dias antes, num jantar a quatro no restaurante Amazonas:
– "Eh pá, sabes… talvez eu vá ficar por cá quando acabar a comissão. Já o disse à Sónia. Custa-me tanto ver todas essas crianças estropiadas, esfomeadas e com tão poucos médicos habilitados a tratá-las! Imagina que não há um único pediatra nos hospitais de Luanda. Dá para acreditar?"
E agora, algum Deus tem piedade desses meninos a quem o médico se queria devotar? Não. A resposta sentia-se no enervante silêncio raso à "picada". Silêncio arrependido e envergonhado, silêncio traidor que se propunha enrolar a alma até ao Barqueiro. Como um fardo, seria transportado por entre os odores da morte que nos chegavam das silhuetas avermelhadas dos morros sacudidos pelo vento, que gemia árias do Inferno nas hastes do capim. Sinfonia sem músicos ou maestros, ou compassos, ou timbres. Tão só, um toque de finados, perdido nos ecos do choro de guerreiros que se disporiam a sentar-se no lugar do alferes, naquela maldita Barca.
E o "seu amor" em Luanda, Penélope sorridente, aguardando mais um regresso do seu amante, marido, médico e guerreiro! Quem lhe iria dizer:"Sónia, és mais uma viúva da Pátria – que brevemente irá ser vendida – e, então, receberás uma medalha e um ósculo cínico de um qualquer D. Sebastião surgido do cobarde nevoeiro da traição, para se tornar Presidente e a quem, eternamente, deverás gratidão!"
«E julgareis qual é mais excelente / se ser do Mundo Rei, se de tal gente.»
Os heróis nunca morrem, por isso eu sei, amigo Lourenço, que naquele segundo, entre o Cá e o Lá, gozaste o canto do Poeta:
«Esta é a ditosa Pátria minha amada / À qual se o Céu me dá que eu sem perigo / Torne, com esta empresa já acabada, / Acabe-se esta luz ali comigo.» (…)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

CIDADANIA E PROFISSIONALIDADE

Questionar e desconstruir preconceitos próprios e estereótipos sociais.

“The pictures inside the heads of these human beings, the pictures of themselves, of others, of their needs, purposes, and relationship, are their public opinions. Those pictures which are acted upon by groups of people, or by individuals acting in the name of groups, are Public Opinion with capital letters”.
Walter Lippmann, 1922

"As imagens formam-se dentro da cabeça dos seres humanos: as imagens deles próprios, dos outros, das suas necessidades, propostas e relações; e das suas opiniões. Aquelas imagens que são executadas por grupos de pessoas, ou por pessoas agindo em nome de grupos, são a Opinião Pública com letras maiúsculas ". Walter Lippmann, 1922

Obviamente que alguns dos processos de aquisição cognitiva passarão pelos órgãos de comunicação social; mas não de todos, naturalmente. A maior parte adquire-se em literatura mais elaborada e, essencialmente, na riqueza das relações inter-pessoais que, dia-a-dia, nos atestam o baú do conhecimento.
A identificação dos estereótipos culturais deverá ter sempre em conta a fonte do qual brotam. Isto é: Deveremos relativizar tudo o que nos dizem porque, sempre ou quase sempre, as opiniões dimanadas estarão sujeitas a contextualizações intrinsecamente políticas e, ou, de cultura diametralmente oposta à nossa. Há diversos e importantes ícones nas sociedades que, por si só, fazem veicular imagens metafóricas que, pela sua insistência diária, levam a que o sujeito receptor – o simples e anónimo cidadão – se convença da materialização dos seus sonhos. Na verdade existe uma evidente predisposição para aceitar estereótipos truncados de conteúdo sério e nobre.
Há três anos estive em Cuba e tive a oportunidade de constatar que, em minha opinião, o maior “Dinossauro” da política mundial dos últimos cinquenta anos, Fidel Castro, pelo seu carisma e pela enraizada verdade das suas mentiras (também diz algumas verdades) conseguiu que toda a população (ou quase) seja considerada como um estereótipo cultural e social bem acima, no seu entender, de qualquer outro povo. Claro que o que lá se diz de verdade, aqui no Ocidente é mentira; mas também sei que tudo o que lá se diz de mentira, aqui é verdade! Quero com isto dizer que a Comunicação Social, lá como cá, se move por interesses que se enquadram, incontornavelmente, nos pressupostos sociopolíticos de quem tem o poder e este, na voraz propagação dos seus conceitos ideológicos, arregimenta a Comunicação Social no intuito de disseminar o farelo dos seus interesses.
Nós, Portugueses, tendemos a crer cegamente na história do passado que sublima feitos e conquistas e, talvez por isso, tenhamos criado a imagem do Português “desenrascado”, astuto e vencedor. Ora aqui está um estereótipo sociocultural falacioso e que não corresponde à imagem actual. A nossa sociedade, hoje, revê-se em arquétipos de beleza, arte, desporto e religião que mais não representam que simples paliativos para suportarem a dor da ausência de uma identidade forte, pragmática e despida de preconceitos de inferioridade em relação aos outros. Na verdade, por muito que nos custe, os autênticos estereótipos culturais e sociais (digamos assim; espero que me perdoem, se possível com água benta!) são os glorificados artistas de futebol; as belas e mui nobres modelos das revistas cor-de-rosa e de telenovelas de qualidade medíocre.
Mas percebe-se que a opinião pública se deixe emaranhar nesse gigantesco novelo de fitas luzidias. Percebe-se porque as pessoas precisam de heróis; sentem-se esfaimadas de glória e colocam-se no lugar dos seus ídolos. Para toda essa gente os modelos que veneram representam, ainda que efemeramente, tudo aquilo que gostariam de ser.
Tenho o dever de questionar e desmontar todos os preconceitos da sociedade e apontar a falta de bons e verdadeiros estereótipos sociais.
Com a tão famigerada globalização, as sociedades perderam muito das suas intrínsecas riquezas culturais. A identidade de uma estabelecida cultura vai-se confundindo com outras; e assim se perdem valores próprios e se recriam estereótipos pouco nítidos e praticamente despidos de conteúdo.
Tão ou mais grave que a dispersão (ou esvaziamento, se quiserem!) do escrínio cultural das sociedades, será a dependência, cada vez mais acentuada, dos pobres em relação aos ricos. Não podemos esquecer que sempre que existe uma redução da riqueza dos países mais prósperos, logo se fala com censurável impudência da globalização. Mas isto não é de agora! O Império Romano legislava no sentido de decapitar a força económica dos povos oprimidos, oferecendo-lhes em troca a possibilidade de se subjugarem à sua religião, usos e costumes. Sem direito a contestação! Os Egípcios mantiveram o domínio sobre uma grande parte de África, adoptando princípios idênticos.
No século XIX quando a economia europeia entrou em derrapagem, surgiu o que apelidamos de neocolonialismo, (mais tarde, em consequência de graves convulsões políticas passou a chamar-se capitalismo) cujos pressupostos de sustentação implicavam a busca selvagem de novos mercados. Os seus principais artífices foram os Americanos, Japoneses e alguns ricos países europeus como a Inglaterra e a França. Ora tomem lá… não são ricos só agora!
Ou seja: Os países endinheirados tornavam cativos os mercados pobres, transformando o continente Africano e Asiático em centro fornecedor de matéria-prima e ao mesmo tempo consumidores de produtos industrializados, gerando com isso um alto grau de exploração e dependência económica. Bem, o que se passa hoje é precisamente a mesma coisa; só que não se chama neocolonialismo ou capitalismo
(de tão agrado do romantismo ideológico de esquerda). Chama-se GLOBALIZAÇÃO!
Acreditam na possibilidade dos países desenvolvidos serem generosos com os outros? Há quem diga que sim, num manifesto atentado à inteligência daqueles que se distanciam dessa nova ordem mundial. Claro. Porque não devem acreditar na sua bondade? Então não se criam milhões de empregos nos países subdesenvolvidos? Então não é que eles agora até já têm computadores, televisão, telemóveis e todos os luxos que nós temos?
Bom, já sei: a água é pouca e cara. Mas não precisam da água porque já lhes chega a que cai abundantemente do avermelhado do seu céu. A mandioca continua a ser o prato principal da sua alimentação. Mas que diabo, eles dispensam os triglicerídeos e o colesterol. O calçado não se usa porque as suas principais estradas são de terra batida ou atapetadas de capim. Para quê usar sapatinho? As roupas não passam de singelos farrapos de linho. Mas para quê usar vestidos ou calças se o calor é diário? Então que é que lhes falta? Trabalho… muito trabalho! Os ricos recebem as jóias buriladas pelos pobres e em troca permitem-lhes o acesso à televisão. Ah! Já me ia esquecendo: mas para ver televisão é preciso electricidade! Quanto custa? Muito pouco: mais umas “horitas de trabalho”. É simples, não é?
Claro que é. É a globalização.
Como dirão os chauvinistas Franceses:
“Il est très simple cher ami: je vous donne un âne, vous me donner une vache!”
É assim mesmo: que trabalhem os negros de alma branca e os brancos de alma negra – ou enlutada pela baixela dourada da globalização.